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A Gula, doce pecado


Há muitos mas muitos anos, num convento, havia uma freira muito gulosa. Tão gulosa que tinha ficado responsável pelas sobremesas e doces das épocas festivas mas estava impedida de provar a massa e os ingredientes durante o fabrico. A gula era pecado.
A Páscoa aproximava-se e ela estava a derreter o mel para cobrir as amêndoas. 
No convento, havia tanta agitação com os preparativos da época que não estava mais ninguém na cozinha. Ao olhar em volta e ver-se sozinha com o aroma do mel aquecido à sua frente, não resistiu. Pegou na colher de pau com a qual mexia o tacho e devorou o mel todo até ficar enjoada. Não estava a pensar nas consequências.
Quando parou e tomou consciência do que tinha feito ficou em pânico. Tinha usado o mel todo que havia na cozinha. Como é que agora iria fazer as amêndoas? Sentou-se no chão, extremamente arrependida e a chorar.
-Meu Deus, como é que eu vou adoçar as amêndoas agora?
Em cima da mesa estava apenas um saco com uma iguaria nova, chamavam-lhe açúcar. Apenas a Madre usava o pó para por no chá. Assim que se colocava na água derretia logo.
-Poderia molhar as amêndoas e passa-las pelo pó mas ele vai desaparecer logo. – Pensou ela enquanto pegava no saco.
De repente, a porta da cozinha abriu-se e a Madre entrou. A freira assustou-se, o saco virou-se e o açúcar caiu no tacho. Virou as costas e escondeu-o.
-Precisa de alguma coisa Madre?
-Vim só ver se estava tudo bem.
-Não se preocupe.
-Deixa-me ver o mel!
-Não se preocupe, Madre. Estava agora a começar a mexe-lo.
-Irmã, deixa-me ver o tacho!- Indagou a Madre já a ficar furiosa.
A freira afastou-se e deixou a Madre ver o tacho. Fechou os olhos para não ver.
-Hum, está delicioso. Vou mexer para não agarrar.
A freira não queria acreditar. O açúcar tinha derretido com o calor e com a água que havia, tornando-se num creme doce.
Desligou o lume, deitou as amêndoas la para dentro e esperou que arrefecessem.
Foram as amêndoas da Páscoa mais saborosas que já alguma vez tinham comido.


P.s.: As amêndoas só começaram a ser cobertas com açúcar quando esta iguaria chegou a Portugal. Até lá eram cobertas com mel. São um doce muito popular na altura da Páscoa, provavelmente por ser parecido com os ovos, símbolo de vida e nascimento. Nas tradições cristãs, em algumas zonas do país, são oferecidas pelos padrinhos aos afilhados.

Comentários

Paula noguerra disse…
Que delicia (✿◠‿◠)♥

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