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O meu amigo "Xixas"


Foto: net

A rotina era sempre a mesma: o agricultor acordava com o som do galo da quinta, após um rápido pequeno-almoço, seguia em direcção ao estábulo para alimentar uns animais e levar outros até ao pasto.
Contudo naquele dia, algo de novo aconteceu: enquanto pastava senti algo a mexer nos arbustos. Primeiro pensei que seria o vento ou até o meu amigo rato do campo que nos costumava visitar mas, o ruído continuava e ninguém aparecia. Os pêlos da minha crina começaram a arrepiar-se de receio. Pensei:
-O que será de mim, sozinho neste terreno. O meu dono só regressará quando o Sol se esconder atrás do monte…
O som repetia-se e o medo fez-me lembrar uma conversa que tive há uns anoscom o meu pai:
- Filho, nunca te aproximes dos arbustos no Verão. Existe um grande inimigo: a cobra.
- Pai, o que é uma cobra?
- É um gigante, com uma língua venenosa que quando pica as nossas patas, adormecemos para sempre.
Nunca percebi o que era adormecer para sempre até ao dia em que o meu pai desapareceu enquanto dormia. Nunca mais o vi. Deve ter sido uma cobra, pensei.
De repente, os meus pensamentos foram interrompidos por uns olhos pequenos que saíram debaixo do arbusto. Um corpo esguio aproximou-se de mim, com algum receio. Nunca tinha visto uma minhoca tão grande. Perguntei:
- Olá, que animal és? Nunca te tinha visto. És uma minhoca?
- O que é uma minhoca?
- É um animal comprido que vive debaixo da terra.
-Não “xei xe xerei” uma minhoca, todos me chamam por “Xixas”.
Que engraçado, pensei. Ele tem uma fala estranha mas divertida.
- Que fazes por aqui?
- Tenho frio, muito frio à “Xombra”. Procuro o “Xol” para me aquecer…
A conversa prolongou-se pela tarde fora. Falaram sobre tudo e tornaram-se grandes amigos. Faziam companhia um ao outro, dias a fio, naquele vale deserto até o agricultor chegar. De manhã, assim que o Sol começava a aquecer “Xixas” lá chegava para mais um dia de grandes diálogos. Por vezes, nada havia para dizer, apenas olhavam para o outro e aproveitavam o calor do Verão.
Uma tarde o agricultor chegou mais cedo que o costume e viu o “Xixas” numa pedra junto a mim. A raiva apoderou-se do seu rosto e com uma expressão no olhar de receio, pegou noutra pedra e atirou ao meu amigo, que não conseguiu escapar.
Foi a última vez que o vi. No dia seguinte o seu corpo ainda lá estava, mas os “x´s” calaram-se para sempre. O “”Xixas” adormeceu para sempre e finalmente descobri quem era a cobra que fazia dormir sem retorno.

Comentários

Anónimo disse…
Olá Olá ao tempo :`*
Saudades...
Agora só estou no blog: http://aquihafoto.blogspot.com/

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