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Cheirinho a Clarim

Imagem : net


Todos os dias Dona Rosa, já reformada, saía por volta das 10h, para fazer as suas compras no supermercado da rua.
Com cabelo branco arranjado, roupa fresca, a cheirar a sabão Clarim, seguia de saquinho na mão. O Sr. José, seu vizinho da frente, estava sempre a essa hora, à janela para a cumprimentar. Esta rotina era repetida há mais de 10 anos. Desde que Dona Rosa ficou viúva.
Sr. José nunca casou. Viveu a vida dedicada ao seu trabalho. Os horários da pesca não lhe permitiram assentar, e, agora, já com 70 anos quase feitos e com as doenças próprias da idade restava-lhe o Pitufas, seu gato para fazer companhia.
-Bom dia, Dona Rosa! Bons olhos a vejam!
-Sr. José, bom dia!
Esta era a conversa de dois vizinhos. As primeiras palavras que cada um exprimia todos os dias.
Ele tinha sentimentos por ela mas nunca conseguiu demonstrá-los. Ela, vivia agarrada ao respeito pelo passado e obrigava-se a viver acompanhada pela solidão.
No dia do seu septuagésimo aniversário Sr. José resolveu que não valeria mais a pena viver com o que trazia no peito e as lembranças de seu perfume Clarim.
Comprou o ramo de rosas mais belo que encontrou, deixou-as secar. Desembrulhou uma barra de sabão Clarim com muito cuidado e no lugar do sabão colocou as pétalas de rosa. Escreveu uma carta e colocou-a juntamente com a barra, atada com um laço vermelho, com as seguintes palavras:
“Em todos os jardins, que por mares cheguei,
Flores belas, encontrei, cheirei e apreciei.
Em todas quis encontrar,
O teu perfume e teu olhar.
Em todas deixei o tempo ficar,
Tempo que teima agora me deixar.
Em todas procurei,
Em todas deixei,
Mas apenas em ti quero ficar.”
O presente foi cuidadosamente colocado à porta de Dona Rosa.
No dia seguinte, ela levou-o para casa e nunca abriu o pacote. Guardou-o como se o bem mais precioso se trata-se, mas não quis ler. Sabia que abrir iria alterar aquilo o que ela tinha de seguro.
Saiu de casa e seguiu a sua rotina:
-Bom dia, Dona Rosa! Bons olhos a vejam!
-Sr. José, bom dia!

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