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Viagem no Hula-hoop

imgem: wikipédia
Recorrendo ao seu equilíbrio, Mariana, fazia rodar sobre si, o círculo rosa, o Hula. Raramente, conseguia fazê-lo mais que duas a três vezes seguidas. Não desistia. Alternava com os braços, fazia-o cair até às pernas e à volta do pescoço. Desde que, tinha recebido aquele brinquedo novo, queria regressar a Lisboa, em Setembro, e impressionar as suas amigas com as suas habilidades.
Num final da tarde, já sentia dores à volta da cintura e resolveu descansar, deixando o Hula no chão da sala.
Sempre que estava sozinha e sem nada para fazer, a imaginação de Mariana inventava amigos e viagens. Falava sozinha e voava para um mundo que ela própria recriava todos os dias.
Um dos seus temas preferidos era, se imaginar no futuro. Vaidosa como ninguém, sonhava em ser bonita como as meninas que tinha visto na TV e queria de ser uma mulher de negócios, de fato, sempre bela e composta, a chefiar uma empresa.
De um lado, ao outro da sala, desfilava. Imaginava-se de fato, numa reunião a receber elogios e a dar ordens.
-Vem, vem, eu mostro-te! – Repetia uma voz, vinda de dentro do Hula, acompanhada com uma luz muito brilhante.
Mariana aproximou-se do Hula, com muito cuidado e dobrou-se para ver de onde vinha voz.
-Vem, vem, comigo!
Dentro do Hula, havia como que um túnel. Mariana estava assustada.
-Não tenhas medo! Eu mostro-te!
Uma mão saiu de dentro do círculo e agarrou a de Mariana, que caiu lá dentro. Atravessou-a uma sensação estranha, como se tivesse a atravessar o chão.
Do outro lado, estava um menino louro, vestido de azul, a sua cor preferida, numa sala que ela não conhecia. Era tudo muito cinzento. Havia apenas uma cadeira e uma mesa com um livro em cima.
-Vem comigo!
De mãos dadas, abriram a porta dessa sala. Do outro lado não havia ninguém, apenas mais mesas e mais cadeiras vazias. Parecia de noite e muito tarde.
-Onde estou? Não está aqui ninguém? – Perguntou.
- Agora não, é muito tarde! Já todos foram para casa. Esta é a tua empresa.
Toc, toc, toc. Começou-se a ouvir uns passos. Parecia de alguém com sapatos de salto alto.
-Anda!
O rapaz de azul arrastou-a e esconderam-se atrás de um armário, na sala. A porta abriu e entrou uma mulher muito bela, muito bem vestida mas com um ar extremamente cansado.
-Quem é? – Sussurrou Mariana.
-És tu!
-Eu?
Chocada e quase com a voz a tremer, sem saber o que pensar.
-Porque estou sozinha?
-Estás sempre sozinha. É o preço pelo poder e pela beleza. Viveste para o trabalho e apesar de muito bela, os ciúmes dos homens associados à tua falta de tempo, nunca te permitiram casar.
-Ãhhh? Quero voltar para casa! Leva-me de volta!
O menino, retirou do bolso uma argola pequena e atirou-a ao tecto. Abriu-se um buraco, semelhante ao do Hula e pegou-lhe na mão:
-Salta comigo!
Começaram a flutuar, entraram no buraco e, de repente, já estavam na sala.
O tempo passou pela Mariana, que nunca conseguiu deixar de desejar ser uma mulher de negócios bela e bem sucedida. Nunca conseguiu, porque sempre que tinha que optar entre a família e a carreira, escolhia sempre a primeira, como se o menino vestido de azul pega-se na sua mão e arrasta-se pela porta do trabalho fora.

Comentários

Eva Gonçalves disse…
Bem... este final da tua história tem muito que se lhe diga... eu a pensar que era mais uma história quase infantil, mas afinal, ~esta história é mesmo diferennte pelo final...o problema da Mariana é comum a muitas mulheres :)Não digas nada a ninguém ,mas a meu ver, a família deve mesmo estar em primeiro lugar, e no meu caso, esteve sempre...esta versão do "conto de Natal", em que o menino, é o fantasma... é interessante porque muitas vezes, quando optamos pela família ou pela carreira, pensamos o que poderia ter sido se a opção fosse outra :)) beijoca

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