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Meu amor

imagem: net


Perfume no pescoço, Benamour na pele, colar de pérolas, cabelo arranjado e unhas perfeitas. Isabel, não saia à rua, nem para levar o lixo, com algo desarranjado. Sempre foi assim, já sua avó dizia:
-Belinha, sabes como sais mas não sabes como entras. Uma senhora deve sempre andar perfeita.
Aquele dia não era excepção. A frutaria era mesmo do outro lado da rua. Vestiu o seu vestido bege, suas sandálias castanhas, bem confortáveis, pois a idade pesava na coluna. Colocou o seu Benamour e saiu.
-Dona Isabel, posso fazer-lhe uma pergunta? – Indagou a Sónia, filha do dono da frutaria.
Sónia, era uma adolescente no auge. Sua pele o denunciava.
- A sua pele é fantástica! O que usa?
-Ohh minha menina, a minha pele nunca conheceu outro creme.
-E qual é?
-Benamour!
-Ohh! Isso é um creme francês? Deve ser bom!
-Não, português e já muito antigo! Vai lá dentro, lava o rosto e volta cá.
Isabel, tira a sua bisnaga da mala e coloca o creme no rosto da jovem.
-Humm, que cheirinho agradável, que textura aveludada! Adorei!
Regressou a casa.
Nessa tarde, foi lanchar com sua amiga Maria e contou-lhe o episódio.
-Lembras-te quando usamos o nosso primeiro creme!
-Sim, foi o Afonso que te ofereceu no teu aniversário. Nessa altura, os produtos nacionais faziam parte do nosso dia-a-dia. Hoje! Bem hoje!
-Pode ser que em altura de crise se volte a olhar para o que se tem cá dentro - Suspirou Isabel.
O final da tarde aproximou-se e no regresso, no meio da rua, ouviu:
-Dona Isabel! Dona Isabel!
-Olá Sónia! Boa tarde!
-Tentei comprar o creme que me disse mas não consegui. Tentaram-me vender outro estrangeiro, mas era tão caro!
Isabel, abriu a mala e deu a sua bisnaga a Sónia!
-Obrigado! Mas não precisa?
-Sim, mas eu tenho outras lá em casa e não te preocupes.
Sónia, pulou de contente e partiu.

Olhar para dentro e reparar o que existe, torna-se difícil quando não se quer ver.

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