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Doce Passado

Devagar e sem pressa de chegar a lado nenhum, António, descia as escadas. Eram 9h30, altura do dia em que vinha para o parque ver quem passa. O médico tinha lhe indicado caminhadas e era o que ele tentava fazer. Dava duas ou três voltas ao espaço todos os dias. Tudo dependia da força das suas pernas cansadas de 80 anos de muito trabalho.
António, foi pasteleiro a vida toda. Acordava de madrugada todos os dias para fazer os bolos que, deliciavam a Pastelaria Pão Quente lá do bairro.
-Ohh, vizinho! Nunca mais comi uns croissants quentes,tão deliciosos quanto os que você fazia. Os tempos são outros!
E de facto, era verdade. Os hábitos mudaram e a pastelaria continuava a vender bolos mas já não os fabricava. Chegavam todos os dias numa carrinha vindos sabe-se lá de onde. Provavelmente feitos de forma mecanizada numa fábrica algures.
Os descendentes do dono da Pão Quente, tentaram durante vários meses, procurar um pasteleiro, após a reforma de António, mas sem sucesso.
Os mais novos não queriam trabalhar de noite e ao calor do forno.
-Ainda dizem que há crise, António! Ninguém queria vir para cá! O trabalho físico doi e cama chama!- Afirmava, Susana a filha do seu ex-patrão.
-Ohh! São jovens e tem a vida muito facilitada. Eu comecei aos 14 anos, numa padaria. Depois aprendi a fazer bolos e fiz durante 40 anos.
Ao seu lado no balcão, uma rapariga jovem aproximou-se:
-Desculpem, não pude deixar de vos ouvir! O Sr. era o pasteleiro que fazia os croissants que eu delirava quando os meus pais me levavam.
-Sim era, minha jovem!
-O Sr. ensinava-me a fazê-los? Gostava tanto de poder dar aos meus filhos o mesmo mimo que um dia, me fez tão feliz.
-Claro, que ensino.
-Obrigado, muito obrigado!
O Sr. António, ficou tão feliz por poder passar o seu saber a alguém mais jovem. Confiante que o seu conhecimento não tinha morrido junto com aquele rolo da massa empoeirado que ornamentava agora a sua cozinha.

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