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O Natal do Astétrix

 Na aldeia gaulesa, Panoratix preparava tudo para as festividades do Solstício de Inverno, um fenómeno astrológico que marca o início da estação. Queria impressionar os seus amigos druidas com algo espetacular. Assim sendo, fechou-se em casa para preparar uma nova poção mágica. Contudo, o barulho dos gauleses estava a incomodar a sua concentração. Eles passavam a maior parte do tempo a comer ou a discutir, só parando quando tinham de lutar contra os romanos. Os almoços duravam horas: comiam de boca aberta, falavam e gritavam enquanto mastigavam.

— Seria fantástico que tivessem, nem que fosse por alguns momentos, boas maneiras — disse Panoratix para Ideiatix, que estava aos seus pés tentando dormir a sesta, deitado sobre um ramo de azevinho.

De repente, teve uma ideia. Despejou tudo o que tinha no caldeirão pela janela, diretamente sobre os seus canteiros de rosas, que reagiram de forma especial à poção, ficando com cabelo.

Depois, lavou o caldeirão e começou a misturar pós, águas, óleos e vários elixires das suas enormes prateleiras. Pegou em Ideiatix, colocou-o numa almofada e retirou vinte e cinco bagas do azevinho onde ele estava deitado, lançando-as também no caldeirão.

Fumo e cores saíram do caldeirão enquanto Panoratix mexia e remexia. Por fim, acrescentou um pó novo que um druida lhe havia trazido da Terra das Especiarias (Índia). Um aroma doce escapou pela janela, atraindo a atenção dos gauleses.

De narizes erguidos e olhos brilhantes, os gauleses correram para a casa do druida.

— Panoratix! — chamou Astétrix. — Queremos provar essa nova poção!

O druida sorriu pela janela e respondeu:

— Tenham calma! Irão todos provar, hoje ao final da tarde, nas celebrações do Solstício de Inverno, junto ao círculo de Menires Sagrados.

Os gauleses, que geralmente não ligavam muito à celebração por acharem que era "coisa de druidas", ficaram em pulgas.

Assim, ao anoitecer, numa clareira no meio da floresta, os druidas reuniram-se em círculo, cada um junto ao seu Menir Sagrado, enfeitado com coroas de visco e azevinho. No centro, erguia-se um pinheiro que todos acreditavam ser a árvore mais antiga do mundo. Ao redor dos menires, os gauleses reuniram-se, embriagados pelo aroma doce que saía do caldeirão de Panoratix. Era a noite mais longa do ano.

Os druidas exibiram os seus mais recentes feitiços e poções mágicas, mas os gauleses já bocejavam, conversando entre si. Alguns, como Obéfix, comiam — afinal, ele nunca saía sem uma coxa de javali para enfrentar o tédio. Quando chegou a vez de Panoratix, o druida distribuiu uma concha do conteúdo do seu caldeirão a todos.

Esperava-se algo espetacular: saltos, fumo saindo pelos ouvidos… Mas nada aconteceu. Os gauleses permaneceram quietos, até que, de repente, começaram a dançar. Sim, a dançar! Parecia que ouviam uma música invisível, enquanto bamboleavam os corpos. De tempos em tempos, paravam para beijar ervas, acariciar arbustos e abraçar árvores. Imbuídos por um amor repentino à floresta, pegaram delicadamente em cogumelos, bagas de azevinho e visco e enfeitaram o velho pinheiro. 

Obéfix colocou todo o seu recheio de coxas de javali na árvore.

O sol começava a se pôr, e os seus últimos raios de luz atravessavam os ramos do pinheiro, que agora brilhava com os enfeites improvisados.

Os outros druidas não conseguiam acreditar. Os enérgicos e brutos gauleses, agora dançando delicadamente em torno daquela árvore enfeitada, tinham, sem querer, criado o que seria considerado a primeira árvore do Solstício de Inverno enfeitada por bagas e..bem e...coxas de javali.



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