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A Dança das Alvéolas



Era uma vez uma pequena alvéola chamada Aurora, que vivia com a sua família num beiral de um telhado de uma casa antiga em Lisboa. A pequena Aurora era filha única e vivia com o seu pai, Augusto, e a sua mãe, Alice.

Tal como todas as pequenas aves, ia todos os dias para a escola mais perto de sua casa. Era num parque urbano amplo e calmo, onde a professora Arménia ensinava a arte de ser uma alvéola-branca. Aprendiam a procurar comida, a afastar-se dos perigos, a esconder-se dos humanos e, sobretudo, a dançar.

Sim, um dos principais ensinamentos era a Dança das Alvéolas, onde aprendiam a abanar a cauda. Escusado será dizer que esta era a disciplina preferida da maioria dos alunos. Bem, quase todos, porque a Aurora não conseguia abanar a cauda.

Certo dia, a professora Arménia avisou que os pais poderiam, se quisessem, assistir à próxima aula de dança. Todos ficaram muito felizes, inclusive a Aurora. Contudo, após contar aos pais e notar o imenso entusiasmo deles em assistir, Aurora ficou ansiosa e nervosa.

— Aposto que és a melhor a dançar, como a tua mãe — dizia Augusto. — Claro que sim, ela tem ginga! — reiterava a mãe.

O dia aproximava-se e, na noite anterior, Aurora mal conseguia adormecer. Tinha medo do que os seus pais pudessem pensar. Todas as alvéolas sabiam dançar e abanar a cauda, mas ela, por mais que tentasse, não conseguia.

Contudo, o cansaço apoderou-se dela e acabou por adormecer.

No dia seguinte, a caminho da escola, encontrou uma menina humana pequenina. Ela estava a fazer algo estranho: baixava as pernas e tentava saltar para cima de um muro, mas não conseguia. Tentou vezes sem conta. A sua mãe dizia:

— Vá, não custa nada!

Aurora ficou tão intrigada que resolveu parar junto dela.

Ficaram as duas a olhar uma para a outra. A pequena criança falou na sua língua, mas a alvéola não percebia nada. Contrariamente a tudo o que lhe ensinaram sobre como agir perante os humanos, resolveu ficar a observar.

Algo no olhar da criança transmitia-lhe tranquilidade e cumplicidade.

— Não desistas — repetia a mãe da menina, antes de pegar num objeto estranho e começar a falar para ele.

A menina respirou de alívio, baixou as pernas e saltou com toda a sua força e… não é que conseguiu?

Ninguém estava a olhar, apenas aquela pequena ave.

A menina deu pulos de alegria. Parecia radiante.

Aurora reparou que a menina apenas conseguiu quando ninguém olhava e resolveu tentar dançar também.

Assim, concentrou-se na sua cauda e, com toda a sua força, tentou abaná-la. E não é que conseguiu?

Ninguém estava a olhar, apenas aquela pequena menina.

A alvéola deu pulos de alegria. Já poderia ir à aula de dança.

A ave e a criança olharam-se uma última vez e Aurora partiu.

A aula de dança da escola das alvéolas foi um sucesso e a pequena Aurora divertiu-se imenso.

À noite, antes de dormir, a ave e a criança estavam felizes, e a última imagem que viram nas suas mentes antes de adormecer foi o olhar que partilharam uma com a outra naquela manhã no parque.



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