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Livro sem memórias

 Era uma vez um livro. Um livro largado numa estante. Um daqueles livros com capa vermelha, rija e sem desenhos.

Era um livro tão sem graça que ali estava a acumular pó. Já não se lembrava da última vez que o tinham aberto para ler. Aliás, tinha sido há tanto tempo que até ele próprio já nem se recordava do que tinha escrito nas suas páginas.

A sua dona tinha falecido e o livro ficou para a filha, a Leonor, que o guardava numa prateleira como recordação da sua mãe. Essa sim o abria todos os dias, quando Leonor era pequena, para lhe contar uma das histórias do livro.

Ela, contudo, nunca teve tempo para o ler à sua filha, Maria, e as memórias das histórias desapareceram com o tempo da sua memória.

Certo dia, a professora da Maria pediu que ela levasse um livro com histórias diferentes e ela pediu à mãe:

– Oh, querida! Leva um bonito, com belas imagens!

– Mas mãe, todos os meus amigos têm um livro desses e as histórias são todas iguais.

– Então não sei! Agora a mãe não pode!

A menina foi à estante dos livros e começou a procurar. As lombadas eram todas coloridas e bonitas. Todas, exceto uma: mais velha e cheia de pó. Nunca tinha reparado naquele livro. Pegou nele com as duas mãos porque era pesado. Pousou-o no colo e abriu a primeira página. O livro não tinha imagens coloridas. Cada história tinha um, apenas um desenho a preto e branco. Um desenho cuidado e bem definido, que parecia ter sido desenhado à mão.

A curiosidade fez Maria ler as primeiras palavras, depois as segundas, e as terceiras, e sem dar por isso leu a primeira história.

– Maria, vem jantar!

– Mãe, já vou. Estou só a acabar de fazer uma coisa!

– Já te disse que é hora de jantar. A comida arrefece.

Maria demorou uns minutos e Leonor foi vê-la. Quando se deparou com a sua filha com um livro gigante no colo, a ler concentradíssima, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Parecia que tinha viajado no tempo.

Com calma, sentou-se ao seu lado e parou para ler. A comida poderia ficar fria, mas depois aquecia-se. Aquele momento tão especial tinha que ser vivido ali, naquele instante.


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