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Os primos Crustáceos

 


Debaixo de uma pedra, no jardim da dona Gertrudes, no Rogil, vivia o Bolas, um Bicho-de-conta.

Era verão e estava imenso calor e só saía da sua casa de noite, quando estava mais fresco, para se alimentar das folhas velhas e húmidas.

Certo dia, recebeu uma carta de um primo que não via há muito tempo, o Saltos, um Pulgão-da-praia a convidá-lo para ir passar umas férias à sua nova casa. num monte de algas velhas, na praia da Amoreira.

Bolas, não gostava muito de conviver. Estava habituado a andar sozinho e ficou muito indeciso sobre se havia de aceitar o convite ou não. Contudo, só de pensar no sabor de umas algas ficou a salivar.

Nessa noite resolveu iniciar a sua jornada, de pedra em pedra, de tronco em tronco, sempre à procura de sítios húmidos para respirar. Isso mesmo, respirar. Não sei se vocês sabem, mas os Bichos-de-conta respiram pela barriga.

Várias noites passaram e, finalmente, conseguiu chegar à casa do primo Saltos. Quando o viu ao longe, empoleirado num monte de algas iluminado pelo luar, o coração do Bolas bateu mais depressa. Já tinham passado muitos verões desde a última vez que estiveram juntos.

O reencontro foi muito divertido.

Ambos se lembraram das suas férias de infância:

-Lembras-te, Bolas, quando tu rolavas pelas folhas molhadas e eu tentava dar o meu maior salto?

-Sim, passávamos a noite toda nisso.

-Anda, vamos ver o primo Poças.

E lá foram, junto ao rio, numa poça, lá estava o Poças, um camarão extremamente curioso.

-Oi, malta! O que têm feito. O que têm comido? Gostam deste calor?

Os outros dois primos já não se lembravam que o Poças vivia a fazer perguntas e mais perguntas. Aliás quando se tentam recordar, nenhum se lembra de alguma vez ter visto o Poças a afirmar alguma coisa. Eles até lhe tinham posto uma alcunha: O Perguntas. Não só pelo facto de ele estar sempre a perguntar, mas também pela própria forma do seu corpo.

Passaram a noite a contar histórias das suas férias de infância até que terminaram em desabafar os seus lamentos.

O Bolas cada vez saia menos de casa, o verão era demasiado quente e ele tinha que se manter nos túneis frescos para conseguir respirar e o inverno demasiado chuvoso e ele não sabia nadar.

O Poças queixava-se da temperatura dos charcos e das poças na maré vazia, pareciam uma sopa, impediam-no de respirar, deixando-o mole.

O Saltos reclamava que cada vez tinha menos areia. A praia reduzia todos os anos e havia menos montinhos de algas para ele se alimentar.

Os encontros entre os primos eram assim cada vez mais escassos.

O velho Carcaças, o caraguejo, que ouvira toda a conversa em silêncio, aproximou-se devagar.

- Meus meninos, e se a solução de cada um estivesse escondida no problema do outro?

Os três primos olharam uns para os outros sem perceber.

 - Pensem nisso - disse o caranguejo, antes de regressar lentamente às rochas.

Os primos olharam uns para os outros e não percebiam nada.

De repente, uma onda invadiu a poça onde o camarão estava, trazendo um enorme monte de algas.

O Poças debicou alguns pedaços moles, mas ficou cheio. O repasto deu-lhe uma ideia.

 - Saltos, queres estas algas?

O pulgão puxou-as para terra firme e começou a empilhá-las num local protegido do vento.

 - Sabem? As algas conservam a humidade durante muito tempo. Se fizermos vários montinhos, podemos criar sítios frescos para descansar.

O Bolas abriu logo um túnel por baixo de um deles.

 - Que fresquinho! Aqui consigo respirar muito melhor.

O Poças observou as sombras junto às rochas.

 - E eu posso ficar nesses refúgios quando a água aquece demasiado.

Os três primos passaram o resto da noite a melhorar a ideia. O Saltos construiu novos montes de algas, o Bolas escavou túneis frescos e o Poças trouxe mais algas que encontrava com a maré.

Juntos descobriram que aquilo que cada um sabia fazer podia ajudar todos os outros.

Reza a história que, nas noites de luar, os três primos ainda hoje se juntam para brincar. Entre montinhos de algas, túneis frescos e poças brilhantes, nunca mais lhes faltaram aventuras.

 

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