Algures numa terra distante, na floresta de Sabe-se lá aonde, vivia um monstrinho, numa casa da árvore, com a sua família.
Na floresta de Sabe-se lá aonde viviam
várias criaturas mágicas, entre as quais: lamacentos (monstros de lama), musguentos
(monstros de musgo) e folhentos (monstros de folhas).
Mas, o nosso monstrinho era diferente.
Ele tinha o corpo coberto de pelo, como os animais. musgo, como os musguentos, lama como os lamacentos e
folhas como os folhentos.
Ninguém sabia porque era assim. Os
anciãos diziam que acontecia uma vez em cada mil anos.
Os pais, quando ele nasceu, não sabiam
que nome lhe dar então chamaram-no de Sei lá, dado que não tiveram ideias
melhores.
Sei lá era um monstro muito bonzinho,
brincava com todos os outros monstrinhos. Não ficava triste quando o seu pelo
ficava enlameado no lago ou as suas folhas cobertas de musgo quando rebolava com
os musguentos.
O seu primeiro inverno aproximava-se e o tempo arrefecia.
Certo dia, quando Sei lá acordou, viu algo que nunca antes tinha
visto: neve.
A floresta de Sabe-se lá aonde ficou coberta durante essa noite com neve e gelo.
Os monstrinhos brincavam alegremente.
Sei lá correu por entre as árvores, rebolando pelo musgo com os
seus amigos musguentos e saltando em cima das folhas, agora cobertas de neve,
com os folhentos.
Quando chegou ao lago, parou. Os seus amigos lamacentos estavam
todos à beira do lago a olhar para a água.
Sei lá aproximou-se e olhou também.
O que viu deixou-o aterrorizado, assustado e muito, mas muito
triste. O nosso monstrinho gritou com todas as suas forças e correu para casa a
chorar.
O lago costumava estar sempre coberto de lama, por isso Sei lá
nunca tinha conseguido ver o seu reflexo.
Entrou em casa e fechou-se no quarto.
Sua mãe ao ver aquele desespero foi atrás dele. Sei lá, chorava e
dava pontapés nas coisas. Ela abriu os braços e perguntou:
-Queres um abraço?
-Não! Não!
A mãe esperou que ele parasse de chorar, sentou-se ao lado dele e passou-lhe a mão pelo pelo molhado de lágrimas.
-Queres contar o que se passou?
-Eu vi algo horrível e tenebroso no lago.
Já preocupada, insistiu:
-O que viste?
-Vi o meu reflexo.
As lágrimas caíram dos seus olhos e escorreram pelo musgo da sua
face, um aperto cresceu no seu peito, as palavras fugiam-lhe da garganta.
-Meu querido, porque pensas isso?
-Eu não sou nada! Não sou musguento como tu e o pai. Não sou
lamacento e folhento como os meus amigos e ainda tenho pelo como os animais.
-Já pensaste que se calhar o que viste não foi um nada mas sim um
tudo?
-Como assim?
-Sei lá, tu tens em ti um pouco de todas as criaturas da floresta.
Não interessa se sabes bem rebolar como os musguentos, saltar como os folhentos
ou mergulhar como os lamacentos. Não interessa o que vês no teu reflexo.
Tu és especial porque tu tens um pouco de todos.
Nessa noite, antes de adormecer, Sei lá pensou nas palavras da
mãe.
Talvez fosse verdade.
Talvez não fosse um nada.
Talvez fosse um bocadinho de todos.
E sorriu.

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