Era agosto e estava imenso calor. Tiago tinha acabado de almoçar e
ainda não podia ir para a piscina. Estava aborrecido. A sua mãe lavava a louça.
O pai adormecera no sofá, ao lado da avó. O que fazer naquela aldeia
transmontana? Já tinha esgotado o seu limite diário de horas de televisão e de
tablet. Que seca...
Deitou-se no chão do quarto, mais fresco, e ficou a olhar para o
teto, desesperado. Estar sem fazer nada era horrível.
O gato da avó, Fuscas, aproximou-se muito molengão. Ele também
odiava o calor.
Tiago chamou-o para brincar, mas ele não lhe ligou nenhuma...
Continuou o seu passeio pelas zonas mais frescas da velha casa da avó.
Fuscas dirigiu-se ao sótão.
Tiago não gostava de zonas escuras e empoeiradas. O que haveria de
interessante num monte de coisas velhas?
"Deve ir aos ratos", pensou ele.
Como Fuscas não regressou, Tiago decidiu ir procurá-lo.
Naquele sótão havia imensas coisas antigas: roupas do avô,
ferramentas, chapéus, calçado, almofadas e brinquedos velhos.
Fuscas, contudo, apenas se interessou por um livro grande e
colorido, deitando-se em cima dele como se fosse uma almofada.
"Tanta almofada velha e empoeirada, e ele vai deitar-se num
livro rijo. Que tonto!", pensou Tiago.
Quando o rapaz se aproximou, Fuscas abanou a cauda, esticou as
patas e rebolou para o lado do livro. Era como se o estivesse a convidar para
ler.
Ler era algo que Tiago só fazia quando era obrigado. Quando tinha
mesmo de ser. Achava aquilo aborrecido e sem graça. Enfadonho e uma autêntica
perda de tempo. Para quê ler se podia ver um filme ou até uma série infindável
numa qualquer plataforma de conteúdos?
Encolheu os ombros e deitou-se ao lado de Fuscas. Entre os dois
ficou o livro de capa rija e desenhos coloridos. Na capa via-se um menino com
umas roupas engraçadas.
Respirou fundo, mas, passados alguns momentos, pareceu-lhe sentir
a presença de alguém. Sabem como é? Quando parece que está alguém a chegar e
vocês estão de costas e, sem saber porquê, se viram para ver quem vem lá?
Contudo, não havia mais ninguém naquele sótão. A mãe, de certeza,
estaria no quintal a estender roupa, e o pai continuaria a dormir no sofá.
Aquela sensação não desaparecia, e a curiosidade falou mais alto.
Tiago sentou-se e pegou no livro. De onde seria aquele menino? Porque estaria
assim vestido? Que aventuras teria para contar?
E assim, sem dar por isso, Tiago mergulhou nas páginas do livro.
Entrou na história do menino. Era como se os dois fossem partir juntos em
aventuras.
As horas foram passando e Tiago leu o livro todo sem parar, sequer
para ir à casa de banho ou beber água.
Os dois subiram montanhas à procura de tesouros. Tomaram banho em
rios de água fresquinha. Fizeram corridas de folhas e concursos de apanhar rãs
e gafanhotos.
Tiago tinha arranjado um amigo de aventuras. Imaginava-se em cada
uma das imagens do livro, ao lado do menino da história.
Estava tão, mas tão entretido, que não reparou que o livro tinha
um fim.
Sim, um fim.
Na última página do livro havia uma palavra que ele nunca tinha
visto no fim de um livro.
FIM
Tiago ficou a olhar para aquela palavra durante vários segundos.
Como podia uma única palavra acabar tantas aventuras?
Então e agora? Não havia um novo episódio, um novo livro, uma
sequela. Acabava assim?
Tiago ficou muito triste e sem saber o que fazer. Estava tão feliz
naquelas páginas que gostava de apagar aquela palavra e continuar as suas
aventuras, mas não sabia como.
Entretanto, ali perto, estava uma secretária empoeirada com umas
folhas soltas e amarelecidas. Era a secretária do avô. Ele não o tinha
conhecido, mas sabia que o avô gostava muito de fazer caminhadas e contar
histórias. Quando lhe faltava uma história para
contar, inventava outra.
Cansado de estar sentado no chão, acomodou-se na velha cadeira do
avô. Pegou numa caneta antiga que ali estava, fez vários riscos para que a
tinta, já seca, voltasse a surgir e começou a escrever.
Sim, a escrever.
Imaginou-se outra vez ao lado do seu amigo do livro e voltou a
viver novas aventuras. Fizeram um concurso de apitos de flores, guerras de
super-heróis com espigas e muitas outras brincadeiras. O limite era apenas a
imaginação de Tiago.
Ficou a tarde toda no sótão até o chamarem para jantar.
Nesse dia não houve mais televisão nem tablet. Tiago adormeceu com
a cabeça cheia de ideias para as suas brincadeiras com o menino do livro.
Nessas férias, Tiago nunca mais se sentiu aborrecido. Tinha sempre
no bolso um molho de folhas amarelas onde escrevia as suas aventuras.
Sabem de quem eram aquelas folhas?
Querem saber o nome do menino do livro e onde ele vivia?
Ora pois... vão buscar uma caneta ou um lápis e puxem pela
imaginação!
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