O Era uma vez estava cansado de começar histórias, contos e aventuras. Participara em milhares e, agora, já idoso, decidira reformar-se.
Sim, reformar-se. Os autores e escritores estavam preocupadíssimos. Então, como iriam começar as suas histórias?
Quem escreve sabe perfeitamente a sensação de se sentar para escrever sem ideia nenhuma e começar o texto com "Era uma vez". A partir daí, a mente começava a criar um fio condutor. O "Era uma vez" era o café da adrenalina da escrita.
Os autores e escritores tentaram dissuadi-lo de todas as maneiras, mas o "Era uma vez" não mudou de ideias.
Nessa aldeia, como em muitas do nosso país, apenas havia uma criança. Uma menina pequenina que ainda não sabia ler, mas adorava que os pais lhe contassem histórias para adormecer. E todas as histórias começavam da mesma forma. Sempre que o pai ou a mãe abriam o livro, a menina fazia questão de dizer, em simultâneo com o narrador:
— Era uma vez...
A menina gostava tanto de o dizer que aprendeu a desenhá-lo num papel. Escreveu "Era uma vez", à sua maneira, como se fosse um desenho, com várias cores, e à volta desenhava animais, flores, árvores, princesas e dragões. Sempre que havia uma personagem de que gostava, acrescentava-a à folha de papel.
Certo dia, a menina disse:
— Era uma vez...
Mas a história era nova e não começava assim.
— Pai, esqueceste-te do Era uma vez!
— Não, filha, as histórias já não começam assim.
— Porquê?
— Sabes aquele senhor velhinho que vive na casa de pedra, ao pé do chafariz?
— Sim, ele não fala muito.
— Esse senhor já muito velhinho, de quem ninguém sabe a idade ao certo, acho que nem ele, chama-se Era uma vez. Era ele que ajudava todos os escritores a iniciar as suas histórias.
— Como é que ele fazia isso?
— Ninguém sabe. Acho que só quem é escritor é que sabe.
A menina ouviu a história com atenção, mas não conseguiu adormecer no final, como de costume.
— Vá, querida, tens de ir dormir! Já são horas!
— Pai, não consigo. Falta-me a história!
— Mas, querida, contei-te uma.
— Não, pai. Tu leste-me um livro, mas não me contaste uma história, porque não tinha o Era uma vez.
O cansaço apoderou-se dos seus olhinhos e acabou por adormecer.
No dia seguinte, a menina prolongou um pouco um dos seus passeios e foi até à casa do velhinho. Foi sozinha. A aldeia em que vivia era muito pacífica, um autêntico paraíso para as crianças, pois podiam andar à vontade, sem medos. É pena que os adultos não tenham as mesmas oportunidades de emprego, para que a menina pudesse ter outros amiguinhos e amiguinhas com quem brincar.
Quando chegou à casa do velhinho, bateu à porta.
Passado um momento, apareceu o Era uma vez, com a sua bengala de madeira velhinha e cheia de letras desenhadas.
— Sim! Olá, menina. O que desejas?
— Desculpe, senhor, mas gostaria de lhe fazer uma pergunta.
— Uma pergunta? Diz.
— O meu pai disse que o senhor se chama Era uma vez.
O velhinho sorriu.
— Sim, sou.
— Ele também me disse que o senhor agora já não ajuda os senhores que contam histórias.
— É verdade! Estou cansado e as minhas pernas já não são o que eram para me deslocar a cada casa.
A menina ficou triste e disse:
— Não pode ser! O senhor assim acabou com as histórias!
O velhinho franziu o sobrolho.
— As histórias e os contos continuam a ser inventados!
— Não, não!
O Era uma vez não estava a perceber.
— Como assim?
— Os senhores continuam a escrever, mas não a contar histórias.
O Era uma vez ficou comovido e uma lágrima caiu-lhe pelo rosto. Ele nunca tinha pensado na sua profissão daquela forma. No fundo, gostava de continuar, mas estava tão cansado...
— Obrigado! Eu gostava de continuar, mas estou muito cansado. Não consigo ir de casa em casa.
A menina, com a simplicidade que todas as crianças, e só as crianças, têm e conseguem ter, disse, pegando no seu papel do Era uma vez:
— Faça um papel como este e mande-o aos senhores que escrevem as histórias. Assim, eles podem desenhar a personagem de que mais gostam e pintá-lo.
O Era uma vez pegou no papel e deu um beijinho na cabeça da menina.
— Obrigado, minha menina!
A partir desse dia, voltou a haver contos e histórias com o Era uma vez. Muitas delas começavam com uma folha em branco, com um "Era uma vez" colorido e espaço para os autores e escritores darem asas à sua imaginação.

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