Era uma vez, algures, na terra de Nenhures, um menino que vivia com a mãe e o pai.
Nenhures era uma terra parecida com tantas outras, onde os adultos correm atrás do tempo e as crianças vivem arrastadas pela vida atarefada.
O menino vivia assim, no meio da azáfama, e, de vez em quando, tentava pedir um pouco do tempo dos pais. Na maioria das vezes, as respostas eram:
— Agora não tenho tempo! Estou a responder a um e-mail do trabalho!
Ou então:
— Não vês que a mãe está a fazer o jantar?
O menino, esse, deslizava pelos dias sozinho.
Certo dia, imaginou que tinha um amigo fantasma. Era um menino da mesma idade que ele, que o acompanhava nas brincadeiras e até o ajudava a fazer os trabalhos de casa.
A partir desse dia, o menino deixou de perguntar aos pais se podiam acompanhá-lo em alguma coisa e passou a fechar-se no quarto assim que chegava a casa.
Ao início, os pais nem repararam, mas, com o passar do tempo, começaram a sentir um certo vazio. Era como se uma rajada de vento frio lhes entrasse no peito todas as noites. Sentiam-se autómatos, limitando-se a cumprir tarefas.
Numa noite, a mãe, em vez de fazer o jantar, encomendou comida e abriu a porta do quarto do filho. Ficou a observá-lo, enquanto ele falava para o vazio, como se dialogasse com alguém.
Deve ser um amigo imaginário, pensou ela.
Ao jantar, resolveu desligar a televisão e perguntou:
— Filho, como se chama o teu amigo com quem estavas a falar há pouco?
O menino corou e respondeu:
— É apenas um amigo, mãe!
O pai nem ouviu, agarrado ao telemóvel.
Os dias foram passando. Depois as semanas, os meses e os anos, até que aquele menino deixou de ser menino e se tornou adulto.
As horas das refeições já não eram partilhadas, porque ele tinha os seus próprios horários.
Agora, jantava sempre no quarto, em frente ao computador.
Certo dia, a mãe esperou por ele para poderem jantar juntos, mas o filho chegou demasiado tarde e ela acabou por adormecer no sofá.
Acordou com o som de uma voz e de alguns risos vindos do quarto e pensou que o filho estivesse a jogar ou a falar com os amigos através do computador.
Foi deitar-se e, ao passar pela porta entreaberta do quarto do filho, viu que ele não estava a falar pelo computador, mas sim para o vazio.
Era outra vez o seu amigo. O amigo que, desde a infância, partilhava os seus momentos e lhe dava atenção.
Já na cama, a mãe começou a chorar.
O marido perguntou:
— Porque choras, mulher?
Ela respondeu:
— Choro porque passei a vida a correr atrás do tempo e agora que já não corro, já não o encontro.
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