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O grito do Talento

 

                                                                                                        Imagem criada por inteligência artificial


Era uma vez um Grito que vivia numa cidade atarefada e numa vida agitada. O seu pai era o Canto e a sua mãe, a Voz Sussurrante.

Naquela casa só se ouviam as canções do pai e a voz alta e estridente do Grito.
O Grito não tinha muitos amigos, porque, sempre que se chateava, levantava a voz tão alto que ninguém queria brincar com ele.
Vivia infeliz. Gostava de ter a voz melodiosa do pai e saber baixar o tom como a sua mãe, mas não conseguia.

Certo dia, chegou à cidade um circo que anunciava um concurso de talentos. Os olhos do Grito brilhavam com os cartazes espalhados por todo o lado.
Nessa noite, não conseguia dormir a pensar que talento teria. Se calhar nenhum, pois a sua maneira de ser afastava tudo e todos.

No dia seguinte, recebeu a visita do avô Sibilo, que costumava animar a casa com o pai. Um assobiava, o outro cantava.
O avô notou que o neto não estava bem e perguntou-lhe, em segredo, num sibilo baixinho:

— O que tens, meu neto?
— Avô, eu gostava de ter um talento!
— Porque queres ter um talento?
— Se calhar… se tivesse algum talento, poderia ter mais amigos.
— Meu querido neto! Mas tu tens — tu és o Grito! Quando te ouvem, ninguém fica indiferente.
— Sim, mas não ficam felizes comigo…

O avô suspirou e disse:
— Vem comigo ver TV, isso passa. Hoje quero mostrar-te uma coisa!

O Grito suspirou também. Sempre que o avô dizia isso, era para mostrar mais um vídeo de bricolage.
Sentou-se ao seu lado e esperou. Nem viu o que o avô escrevia no motor de pesquisa.

— Vou aumentar o som para ouvires melhor — disse o avô.
Quando o som começou a sair das colunas, o Grito não queria acreditar. Eram gritos e mais gritos, mas aqueles não assustavam ninguém. Faziam arrepiar os pelos da nuca e despertavam emoções fortes, de força, bravura e confiança.

— Avô, o que é isto?
— Meu querido neto, chama-se ópera! Um estilo de canto em que alguém transforma os gritos numa música fantástica.

O Grito abriu a boca e começou a tentar imitar o cantor. Nas primeiras vezes não saiu muito bem, mas à terceira tentativa lá conseguiu.
O avô tirou o som sem o Grito perceber. Sem dar por isso, ele começou a cantar.
Os pais apareceram e ficaram maravilhados. Quando terminou e olhou em volta, viu a sua família unida e orgulhosa.

O Grito aprendeu a usar aquilo que todos consideravam um defeito para criar algo extremamente belo.

E quanto ao concurso de talentos… nunca se inscreveu, pois sentia-se tão orgulhoso de si mesmo que não sentiu necessidade de mostrar nada a ninguém.

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